sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Uma carta sobre o amar

  Havia um menino que andava como uma formiga pelas ruas. Sempre rápido e decidido. Aproveitava cada fração de segundo para executar alguma atividade produtiva. Eu simpatizei com ele ao vê-lo pela primeira vez: estava sentado na grama, olhando para o nada, aqui na praça. Falei "olá", mas apenas me olhara e cumprimentara com a cabeça. Ele sempre faz isso. Deve ser porque nossas mães nos orientam a não falar com estranhos, não sei, ou porque assiste a muitos filmes antigos, com toda aquela pompa. Enfim. Me afeiçoei ao garoto. Ah, e a propósito, vamos chama-lo Thiago.
  Thiago nunca foi de falar muito com ninguém. Nem sei como descobri seu nome...Acho que ouvi sua mãe o chamar, ou melhor, berrar uma vez da sacada de casa. Pela cara que fez, assevero que gritos irritam-no, tal qual como qualquer coisa que chame atenção. Uma vez o vi cantar, mas, ao me ver, sua voz definhou até um balbuciar de uma música melancólica, como aquelas que os religiosos cantam na Quaresma. Dava para sentir seu pesar. Aí que eu conheci Thiago mais um pouco. Percebi que falar o induzia a um enclausurar instantâneo. Se não morasse aqui ao lado, poderia jurar que esse menino vivia preso, porque seu jeito me lembra uma lebre assustada. Mas não vive. Assim, tive uma ideia:
  "Thiago,
prazer, meu nome é...". Funcionou.

"Olá, Senhor.
É um prazer conhece-lo. Também aprecio um bom chá. Infelizmente as pessoas com quem convivo preferem refrigerantes, mas consigo, com muita retórica, extrair um suco delas. Me chamam de velho, inclusive, mas considero tal título como um elogio, posto que os anciãos são, em geral, mais sábios. "

  E assim adentrei o mundo do menino formiga.
  Hoje, revirando as muitas cartas que recebi, me deparei com uma que me chamara atenção. Fala do amor:

"Senhor,
estava voltando para casa de ônibus e pensei "será possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?". Isto me intriga bastante, pois, como sabes, gosto muito de imaginar situações. Realidades alternativas. Por exemplo, uma pessoa conhece um alguém e desenvolve um amor, a seu ver, platônico. O tempo passa e essa pessoa se relaciona com outra, a qual sabe amar. Contudo, se a primeira situação fosse diferente, ou seja, o platonismo deixasse de o ser, será que a pessoa amaria o seu amor? Eu creio, senhor, que sim. O amor acontece. E mais: acredito que essa pessoa amaria os dois seres amados simultaneamente. Mas os humanos são possessivos. Desde a invenção da cerca, tentam tomar pra si tudo como propriedade privada, inclusive as vidas de outros. Podem não proferir tal desejo, mas as atitudes são o espelho mais fiel da alma. Palavras mentem. O que há de errado em amar, se é querer o bem do outro?
  O que fazer quando amar duas pessoas é uma questão mais delicada que saber se o fato é possível, pois, neste caso, pode-se negar até a morte de algo ou alguém, mas uma vez amando, o sentimento ali faz morada. Hora grita, hora adormece, estremece e sustenta o olhar, mas demora a morrer, se é que morre. Mas nós, prepotentes e arrogantes, nos encarregamos de julgar os sentimentos, como se fossem passiveis de racionalização, e assim vamos fissurando o coração. Este, uma vez machucado, vai trocando o belo por tecido fibroso, se velando e retraindo, buscando distrações e canais para evacuar o que transborda em si. Geralmente são gestos espontâneos, soslaios, poesia. Todavia, senhor, há corações que ficam assustados com sua capacidade de amar e se culpam pela incompreensão alheia. Deve machucar.
  Acho que não devo falar mais, não é? Creio que tenhas entendido já o que pensei na janela do ônibus. Em quantos encontros deixaram de existir, quantas mãos não se tocaram, quantos palavras foram ditas apenas com o olhar, quantos corações se tornaram fibrosos sem um porquê exato.

                                                                                                  Atenciosamente,
                                                                                                  Thiago            

  Refleti não sei quanto tempo nestas palavras. Eu já amei de verdade, mas digamos que tenho uma tendência ao platonismo e me cansei. Desde então, tenho amado de outra forma, não para a vida toda. Venho amando as pessoas que conheço verdadeiramente. Não ouso dizer amar sem certeza e sim, eu acredito no que me dissera o menino formiga. O amor é um mistério. Não desejo lhe roubar a essência, o entendendo. Sentimentos devem ser sentidos e não compreendidos por completo, a meu ver ao menos. É como o silêncio: uma palavra e sua existência frágil se desfaz. Apenas amo e é este amor que me faz tentar compreender, ao invés de julgar, o porquê da partida tão rápida de um menino pomposo e de olhar atencioso. É esse amor que me faz chorar ao lembrar de tudo que não chegara  a acontecer, de todas as cartas não nascidas, das palavras não ditas; é o que me faz sentir saudades.

                                                                                                         Luiz Jonatan

domingo, 30 de outubro de 2016

Memórias

  Se você pudesse mudar algo do seu passado, o que seria? Imagino que o seu cérebro te induziu a pensar em algum trauma. Eu sei. Os tenho também. Quem não? São como cicatrizes, só que não marcam sempre a pele: o fazem em  memórias, o que é pior, pois o problema - ou talvez  a solução - é que não lembro sempre...só sinto. É como dançar no escuro em um salão cheio: hora algo parece um déjà vu, hora o desespero o invade e dificulta tua respiração. É angustiante. Mas uma hora paramos defronte ao espelho e encaramos a imagem que tanto receamos ver. Mudamos ou nunca fomos aquilo? Ou, ainda, nunca nos vimos como realmente fomos e/ou somos?
  Eu já desejei mudar muita coisa, inclusive me mudar de mim e partir para outro eu, ou mesmo outra vida, dimensão. Os filmes sempre me deram ( a quem não?!) aquele "gás" que, como tal, vai ocupando todo espaço até que chegamos em movimento browniano ao embalo dos Radiohead e caímos no sono. Está aí: o sono sempre fora uma opção de fuga. Com um pouco de sorte, talvez o sonho fosse aquilo desejado. Mas o gás acaba, o despertador toca e eis-me novamente neste plano. Nada mudou. Mudar é realmente uma saída? Talvez. O que sei é que ignorar um problema não é legal. Isso marca a pele, o corpo, a alma [...]. Percebo agora que não adianta fugir. Não pra sempre. Mas é difícil enfrentar o desconhecido ( a morte é um clássico exemplo): como enfrenta-lo? A vida ensina. É...são as impressões de memória, bem diferente de marcas, que me torturam. Não são evidências de fato, passíveis de compreensão. É como aquele perfume que lembra uma pessoa do passado. Talvez ela nunca o usara ou estivera ali, mas me faz lembrar e isso é uma porta com várias vias cabíveis para aqueles que ainda não se deixaram tomar pelo cotidiano preto e branco corporizado, padrão. Eu penso sobre o que realmente queria mudar e concluo que são as etiologias das coisas que me marcaram. Contudo, o fazendo, será que ainda seria eu? Talvez não, haja vista que o bater de asas de uma borboleta não é tão banal. Um desvio padrão também. Eles me lembram um "deixa pra lá" com ar de procrastinação que insisti em insistir.
Fui deixando a filosofia de lado porque pensar dói. Lembrar também. Refletir. Deixei tudo e fui me afundando em atividades. Percebi que já não conseguia mais parar. Sempre fui bom nisso. De fato não fora de todo ruim, mas lembro o porquê dessa necessidade: as memórias são como a chuva no telhado: qualquer infiltração é o suficiente para inundar a casa. Ora, as pequenas coisas fazem toda a diferença. Átomos. Pensei muito neles e me decepcionei ao saber que nunca toquei em nada, que há mais vazio que massa em mim. Fui além, começando a me culpar pelos erros dos outros porque sempre achei os humanos previsíveis. Tirei proveito disso um pouco. Daí ser minha a culpa de não os ter condicionado ao que achava ser mais correto. Ao que não machucava tanto. Às vezes eram apenas gestos que eu mudaria...mas os humanos não são tão previsíveis: estão. Por quê? É bem mais fácil repetir, repetir, repetir até decorar, reproduzir, ouvir elogios e seguir em frente. Mas se não houvessem modelos, POPs e afins? Caros, tais coisas são importantes ferramentas para a prática, mas a teoria não é dispensável. Pensar não o é, a não ser que o não ser não te importe. Reproduzir sem saber é viver de aprovações. Quando não houver alguém para aplaudir, ou os mesmos botões de sempre, os mesmos comandos, talvez entenda.
   Sendo assim, mudar não é uma saída, mas um caminho e, como tal, uma escolha. Mas mudar em demasia pode nos deixar perdidos, muito afastados da via principal...radicalismo pode ser fatal, afirmo, não apenas para o corpo, mas para o ser. Os traumas são alguns buracos, más escolhas, acidentes que fazem - não precisam - parte da mudança. Infelizmente alguns levam mais que uma vida para serem reparados, principalmente para viajantes solitários. Nem sempre há volta. Na verdade, quase nunca há, portanto hoje eu sei que não posso mudar - felizmente - o passado, pois isto esvaziaria toda a essência do viver. Todavia, todos os acidentes das vias me ensinaram algo e assim cheguei ao que sou. Mudei e já fui muitos. Alguns mais eu, outros não e eis-me aqui. A mim, em parte, agrada. Não voltaria ao passado.

Luiz Jonatan
 

domingo, 2 de outubro de 2016

Chá

Eu queria ser chá
Até achei que o era um dia
De verdade, achei...
Mas não.

Não nasci camellia sinencis
Não possuo cafeína
Nem minha água é fervida.
Doce infusão!

Mas vivi a ilusão
De que chá um dia seria
Mas quem não nasce chá
Já não pode o ser

E infundido em pesar
Nem afundo nem ascendo
Vou ao meio
Intermédio

Vou vivendo
Infundindo
Superficial
E morno

Aceitamos a infusão, ora
Não queima como chá,
Nem gela como o frio...
Dá pro gasto. Serve.

Serve chá
Serve infusão
Serve biscoito
Serviçal

Serviçal de ninguém
Prisioneiro da própria alma
De projetos, planos
Plano teórico

Planos de um chá
Digo, infusão
Ilusão
Deixa

                            Luiz Jonatan

sábado, 10 de setembro de 2016

Cais

Quando meus olhos
cor de mel
Encontraram o céu
do seu olhar

Ah, o seu olhar...
Bateu em meu peito
tão quente o coração
Chegou a assustar!

E quando se apagaram,
as luzes
as mãos, os lábios
se afagaram

Mas o medo
o passado
a dor
aDeus [...].

O inverno chegou
e as outras mãos
outros lábios...
sem calor

Senti frio
mas passara o tempo
e como um cais,
você

Atraquei-me
Feridos, nos curamos.
aind'há cicatriz
mas o tempo é mãe

A tempestade vem,
mas nosso forte é seguro.
Juntos, farol,
Cais e embarcação

Feitos um para o outro
Como se não houvesse o antes
Como se sempre fora assim
Como eu amo você

                                                      Luiz Jonatan F. Ambrózio

sábado, 16 de julho de 2016

Amor

Eu o busquei tanto
Que tenho medo, hoje,
De soltar-te e partires sem mim.
Que será isto?
É amor.
Amor é sorrir quando te vejo
e pensar em você quando não
e sorrir mesmo assim
e ser melhor por você, por nós
Amor é assumir os erros
e não mais errar
pra não magoar;
É sentir falta antes da despedida
e não querer se despedir
É sentir-se uma extensão
do ser amado.
Amar é pensar se já comeu
se dormiu bem
se já chegou
Amar é cuidar
mesmo com birra
e rir depois
É se apaixonar todo dia
e dizer que ama
a cada pulsar
Amar, ainda, é te ter
é guardar aquele bilhete
é aquela música nossa
Ai, o amor!...
Quem ama precisa de ferro
no peito
porque coração de quem ama
bate muito forte
transborda no peito...
Sim, eu te amo!


 Luiz Jonatan



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Pele

De tempos em tempos
troco de pele
E isso dói
Pesa o pesar
no peito
Sufoca
Sem ar
Senhor
É frio
Sangra
Sangrou
e eu não sabia
Nunca sei
o que é
Só vem
e passa
mas volta
revolta
e mais uma vez
Troco de pele

                      Luiz Jonatan

sábado, 11 de junho de 2016

Wor(l)d

Mundo maldito
Contudo, é o mundo
Bendito e mudo
É, o que temos, tudo.

Poderia, eu, ver o bem
Ou bem ver o mal
Contudo, o vejo com calma
A calma não mente.

Poderia chorar
Por sessenta  que viram
Não esquecerão
Mas não

A tristeza não é tudo
Há tanto bem aqui
Não vale o desespero
Enquanto houver mundo.

Eu andei mal, muito mal
E o mal se aproveitou de mim
Mas o que é o viver?
É conviver com o bem e o mal

Não choro
Prefiro ver a beleza do caos
Sempre há um raio de Sol
Diminuto, mas lá

Há sempre em si maior
motivo para continuar
Ver o lado bom
e seguir

                                           Luiz Jonatan