terça-feira, 30 de setembro de 2014

Aqueles Dias

Às vezes sei - mesmo que não deseje - que são dias daqueles. Acordo como se o pesar e o peso do mundo se instaurasse em meu coração e em minhas costas. Odeio - os. Nem sei como melhor descrever tais dias estando em um deles. Todavia sei bem como os sentir. Isso é demasiado chato: a concentração se vai ao passo que chega a ansiedade, os pensamentos se transladam à velocidade da luz no vácuo de certezas que se faz em mim, as buzinas, as crianças que choram, o embalar do ônibus me matam e nada faz sentido. Na verdade, nada faz sentido. A diferença reside no quanto estamos dispostos a filosofar acerca disso. Nem a vida faz sentido. O problema é que tem dias sorteados à filosofia que acompanhada de hiponoradrenalinoses causam um estrago...Pior, ainda, quando sua vida se torna uma verdadeira lotérica e o desejo de não ter nascido se torna eminente e algumas cognições iminentes [...].
  Em dias daqueles, bom seria se desvincular de qualquer possível lógica e afins. Bom seria dormir uma semana e não ser necessário acordar porque sua liberdade de escolha está prostrada aos pés de uma tendenciosa linha de rotina, de "escolhas". Bom seria andar descalço sem rumo e não o julgarem louco ou alvo de assalto por isso [...]. Por fim, chorar, talvez, também fosse um bom paliativo, mas nem isso é possível em nenhum dia.

             Luiz Jonatan

terça-feira, 23 de setembro de 2014

É hoje

Tu me cobras a infância
Quando já não mais sou criança
Tu me pedes passado
Quando não mais ha lembranças

Não sou
Não desejo
Não hei de vir a ser
Perfeito

Quem pouco faz
De tudo tem
Enquanto quem tudo faz
Nada

Ainda há quem aponta ao sul
"Veja os erros"
Quando te esqueces a janela aberta
Por ela entram palavras mordazes

Quando a vida toda não é sua
Então, resoluto, decides tentar
"Não minta, não sinta, calado"
Os olhos, tão rasos, transbordam

Será, céus, que não sou digno
Não sou de acreditar?
De que vale a moldura
Se o quadro jaz vazio?

Por que são terríveis as pessoas?
Pelo qual julgam esforços alheios?
O pior são as facas afiadas
São as palavras sangradas

Terrível é descobrir que ninguém mede palavras
Todavia as suas devem seguir a métrica
As seguia antes, mas cansei
Cansei de abster-me de falar

Quando os refluxos sobem à cabeça
Quando te acostumas ao pelego
Quando tenta agradar a todos
Quando sua vida é a minha, cuidado

Adverter-vos-Hei :
nem a morte é uma escolha
Sua letra, seu estilo, o que gostas
Nada é ou pode ser se não agrada

Dizem que a culpa é das estrelas
Que o aval fora do "Bom Deus"
Que num empertigado céu se resolve
Enquanto o único culpado sou eu

As estrelas morreram, são poeiras
O deus que pregam é um demônio mau
O céu não é assistência técnica
Quem permitiu foi eu

Agora esperam o espetáculo
Porque ensaios científicos são chatos
E ninguém aprecia o ignoto(vocês não)
Castiga o aparelho defeituoso

Sabe o que a tão sagrada bíblia diz?
Julgai, guerreai e matai em nome d'Ele
Mas, os aristocratas canônicos não se importam
As beatas, os leigos, os hereges

Ninguém se importa quando está bem
E os dedos apontam
Dedos de merda que cagam 
Cagam pros outros

A merda fede
Mas fede mais seus genitores
Porque estão podres por dentro

E se alimentam de hóstias
E são fieis ao que há de pior
E não se importam com quem chora

Querem impor
Querem falar
E estou cansado de ouvir

Meus ouvidos sangram
Vomito os refluxos em palavras
E a música não sai à cabeça

Há dias mais legais
Há dias mais chatos
E há dias como hoje.

                               Luiz Jonatan

sábado, 6 de setembro de 2014

Barra

Acabei de ler o livro e um homem foi morto há pouco. Isso faz da vida uma comédia: morrer: modificamos o espaço, nos subordinamos às regras e morremos rapidamente, como campanhas de candidatos ditos excêntricos na T.V; deixamos calcificar as células num segundo enquanto outros nem notam nossa existência ou, como acaba de ocorrer, a nossa inesixtência.
Me sinto não-vivo e ouço de sua mãe o pranto. Parecia que o dia, indubitavelmente, seria normal. Morrer é normal, mas não lembro de mortes do tipo por aqui[...].
Há dias que são escolhidos para que ocorram as coisas, outros não. Há dias em que nos sentimos felizes ou triste, todavia há também aqueles nos quais me sinto os dois. É estranho, mas havia me acostumado, e ouço d'A Via Lactea' a 'Fidelity'. É como hoje. Penso novamente no que fazer, por que fazer e quando fazer. 'Fake Plastic' é perfeita tal qual aquele dia na praia. Me sentia parte do silício da areia, do o oxigênio inalado por nós e também do gás carbônico. O sol estava lindoo e o ceu de um azul alegre. Me lembro que o mar também estava feliz (pelo menos parecia) e se demorou a nos alcançar. Assim, dois de nós fora a seu encontro, mas ele estava frio. Não o entendo, porque diz coisas felizes, mas não há um brilho profundo em suas águas (é frio às vezes) e recua ao passo que se aproximam. Mesmo assim, fomos a seu encontro e mergulhamos, como sempre, receosos. Depois o sol se pôs sem sequer nos acusar, mas não me importei muito  (ninguém o fez) porque nada daquilo de fato era tão importante quanto eram os que estavam ali. Era hora de partir. O fizemos e não endornamos corpos: permanecemos sentados e a música era legal. No entanto, era um dia de ambos e ela, o ônibus, o fim da dopamina, alguma coisa me fez lembrar o outro lado deste tipo de dia. Às vezes até tenho um sorriso doentio ao pensar o quão paradoxal alguém pode ser. Seria profundamente pesaroso com alegrias superficias ou alegre com profundas quedas, afinal não somos máquinas hormonais, de dopamina? O que sei é da violenta mudança de humor e do silêncio que paira agora que sua mãe se calou. Sei, ainda, que gente assim, as que fazem rir, na verdade são tristes no fundo. Não sei como conseguem. Não cogito muita coisa. É difícil fazê-lo quando não há imparcialidade. Por fim, ele morreu, sua mãe parou de chorar, o livro acabou e o sono se aproxima. O que ocorre durante este último também me instiga.

       Luiz Jonatan, 00:00

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cinema Mudo

Naquele dia, não se olharam dignamente: os soslaios mesclados de curiosidade se fizeram discretos. O embalo endonarva seus corpos mudos - que outrora gargalhavam entrementes uma pessoa e outra - e a noite permanecia de olhos abertos; fones, cansaço e bolsas complementavam o cenário do que estava por vir. Eu não o  vi de mesmo modo. Na verdade, nunca tinha o visto inteiramente, mas voltemos aos olhares: um permanecia resolvido, contemplava o mundo, embalado por sons, enquanto fitava a realidade; o outro, intermediário, lutava consigo e seus egoísmos, com seus medos e desejos. Tal qual uma ponte, possibilitava o acesso, mas também autolisava e estremecia com o tempo. Se sentia um nada, uma pulga, mas resistia a tais pensamentos[...].  Ainda sobre a tríade, o último, mais denso e empertigado, observava atentamente o tempo e intenções transcorrer, repleto de pompa e abstrações.
Não entendo o porquê de certos resguardos, todavia tentei veementemente compreender:fora falha tentativa. Os bons sentimenos necessitam de escapes frágeis, os quais se decompõem com o ar e são esquecidos. Permanece aquela lembrança bastante a um patrono. Eu de fato desejava que as vias se esticassem e a viscosidade do tempo aumentasse ao máximo para que, mesmo em cinema mudo, aquela cena fosse eternizada e a viagem também. Não obstante, ele sempre espera um abraço, um afago, mas, sobretudo que não seja vencido pelo egoísmo e assim permita o que talvez não tenha impedido. Espera, ainda, que o mundo fitado pelo outro seja para este um seio materno, que o alegre como faz a mim.
Ele não compreende a pompa e receio de amar. Não entende a mim. Não me cogito.[...]
Tendo em vista que a característica principal de um sonho é não pertencer à realidade, os corpos desentornaram, as vias estreitaram, cessou o embalo bem como a cena, a meu olhar, feliz. Cada um seguiu teu caminho, '' até amanhã ''.

         Luiz Jonatan