Se você pudesse mudar algo do seu passado, o que seria? Imagino que o seu cérebro te induziu a pensar em algum trauma. Eu sei. Os tenho também. Quem não? São como cicatrizes, só que não marcam sempre a pele: o fazem em memórias, o que é pior, pois o problema - ou talvez a solução - é que não lembro sempre...só sinto. É como dançar no escuro em um salão cheio: hora algo parece um déjà vu, hora o desespero o invade e dificulta tua respiração. É angustiante. Mas uma hora paramos defronte ao espelho e encaramos a imagem que tanto receamos ver. Mudamos ou nunca fomos aquilo? Ou, ainda, nunca nos vimos como realmente fomos e/ou somos?
Eu já desejei mudar muita coisa, inclusive me mudar de mim e partir para outro eu, ou mesmo outra vida, dimensão. Os filmes sempre me deram ( a quem não?!) aquele "gás" que, como tal, vai ocupando todo espaço até que chegamos em movimento browniano ao embalo dos Radiohead e caímos no sono. Está aí: o sono sempre fora uma opção de fuga. Com um pouco de sorte, talvez o sonho fosse aquilo desejado. Mas o gás acaba, o despertador toca e eis-me novamente neste plano. Nada mudou. Mudar é realmente uma saída? Talvez. O que sei é que ignorar um problema não é legal. Isso marca a pele, o corpo, a alma [...]. Percebo agora que não adianta fugir. Não pra sempre. Mas é difícil enfrentar o desconhecido ( a morte é um clássico exemplo): como enfrenta-lo? A vida ensina. É...são as impressões de memória, bem diferente de marcas, que me torturam. Não são evidências de fato, passíveis de compreensão. É como aquele perfume que lembra uma pessoa do passado. Talvez ela nunca o usara ou estivera ali, mas me faz lembrar e isso é uma porta com várias vias cabíveis para aqueles que ainda não se deixaram tomar pelo cotidiano preto e branco corporizado, padrão. Eu penso sobre o que realmente queria mudar e concluo que são as etiologias das coisas que me marcaram. Contudo, o fazendo, será que ainda seria eu? Talvez não, haja vista que o bater de asas de uma borboleta não é tão banal. Um desvio padrão também. Eles me lembram um "deixa pra lá" com ar de procrastinação que insisti em insistir.
Fui deixando a filosofia de lado porque pensar dói. Lembrar também. Refletir. Deixei tudo e fui me afundando em atividades. Percebi que já não conseguia mais parar. Sempre fui bom nisso. De fato não fora de todo ruim, mas lembro o porquê dessa necessidade: as memórias são como a chuva no telhado: qualquer infiltração é o suficiente para inundar a casa. Ora, as pequenas coisas fazem toda a diferença. Átomos. Pensei muito neles e me decepcionei ao saber que nunca toquei em nada, que há mais vazio que massa em mim. Fui além, começando a me culpar pelos erros dos outros porque sempre achei os humanos previsíveis. Tirei proveito disso um pouco. Daí ser minha a culpa de não os ter condicionado ao que achava ser mais correto. Ao que não machucava tanto. Às vezes eram apenas gestos que eu mudaria...mas os humanos não são tão previsíveis: estão. Por quê? É bem mais fácil repetir, repetir, repetir até decorar, reproduzir, ouvir elogios e seguir em frente. Mas se não houvessem modelos, POPs e afins? Caros, tais coisas são importantes ferramentas para a prática, mas a teoria não é dispensável. Pensar não o é, a não ser que o não ser não te importe. Reproduzir sem saber é viver de aprovações. Quando não houver alguém para aplaudir, ou os mesmos botões de sempre, os mesmos comandos, talvez entenda.
Sendo assim, mudar não é uma saída, mas um caminho e, como tal, uma escolha. Mas mudar em demasia pode nos deixar perdidos, muito afastados da via principal...radicalismo pode ser fatal, afirmo, não apenas para o corpo, mas para o ser. Os traumas são alguns buracos, más escolhas, acidentes que fazem - não precisam - parte da mudança. Infelizmente alguns levam mais que uma vida para serem reparados, principalmente para viajantes solitários. Nem sempre há volta. Na verdade, quase nunca há, portanto hoje eu sei que não posso mudar - felizmente - o passado, pois isto esvaziaria toda a essência do viver. Todavia, todos os acidentes das vias me ensinaram algo e assim cheguei ao que sou. Mudei e já fui muitos. Alguns mais eu, outros não e eis-me aqui. A mim, em parte, agrada. Não voltaria ao passado.
Luiz Jonatan
domingo, 30 de outubro de 2016
domingo, 2 de outubro de 2016
Chá
Eu queria ser chá
Até achei que o era um dia
De verdade, achei...
Mas não.
Não nasci camellia sinencis
Não possuo cafeína
Nem minha água é fervida.
Doce infusão!
Mas vivi a ilusão
De que chá um dia seria
Mas quem não nasce chá
Já não pode o ser
E infundido em pesar
Nem afundo nem ascendo
Vou ao meio
Intermédio
Vou vivendo
Infundindo
Superficial
E morno
Aceitamos a infusão, ora
Não queima como chá,
Nem gela como o frio...
Dá pro gasto. Serve.
Serve chá
Serve infusão
Serve biscoito
Serviçal
Serviçal de ninguém
Prisioneiro da própria alma
De projetos, planos
Plano teórico
Planos de um chá
Digo, infusão
Ilusão
Deixa
Luiz Jonatan
Até achei que o era um dia
De verdade, achei...
Mas não.
Não nasci camellia sinencis
Não possuo cafeína
Nem minha água é fervida.
Doce infusão!
Mas vivi a ilusão
De que chá um dia seria
Mas quem não nasce chá
Já não pode o ser
E infundido em pesar
Nem afundo nem ascendo
Vou ao meio
Intermédio
Vou vivendo
Infundindo
Superficial
E morno
Aceitamos a infusão, ora
Não queima como chá,
Nem gela como o frio...
Dá pro gasto. Serve.
Serve chá
Serve infusão
Serve biscoito
Serviçal
Serviçal de ninguém
Prisioneiro da própria alma
De projetos, planos
Plano teórico
Planos de um chá
Digo, infusão
Ilusão
Deixa
Luiz Jonatan
Assinar:
Postagens (Atom)
