Todos os dias, às 23:00 horas, as coisas ficam cinza pra
mim. Pode não fazer nenhum sentido para você, mas pra mim contém todo o sentido
do mundo. A variação de cores é o que me mantém acordado, contudo, não entendo
o que de fato torna musical o meu cotidiano. Por isso, todos os dias, às 23:00,
eu sou desligado e mergulho em um sono pouco útil, afinal estou sempre pensando
em cores.
Agora me questiono: o que são as cores? Bem, há uma certa
quantidade de definições, mas a que mais gosto é mais ou menos o seguinte: cores
nada mais são que diferentes comprimentos de onda na região do visível ou, o que
dá no mesmo, produto da decomposição do branco, não é, Isaac?! O branco,
portanto, pode parecer inclusivo, afinal une todas as cores, não é? Sim e não.
Ele apenas reúne as cores, mas não inclui a cor preta, que nem é considerada de
fato cor, mas sim a ausência de cor. O preto não entra nesse grupo, o que me
faz pensar em escravidão (não sei por quê). Enfim. Aqui voltamos finalmente ao
cinza. O que é o cinza se não a mistura em diferentes proporções de branco e
preto?! Yin-Yang, noite e dia, equilíbrio, presença e ausência de luz?! O mundo
anda muito pouco cinzento, com prismas renais, que decompõem o branco em cores
de um arco-íris, que hoje é símbolo de um grupo do qual me incluo, ou melhor, faço
parte. O mais curioso é que esse grupo colorido
está cada vez mais afastado do branco, e mais ainda do cinza, não é mesmo?! Os
prismas nos segregam em cores que disputam a radiação. No entanto, eu não
esqueço que todas as cores são importantes, afinal são elas que tornam o mundo
plural, que me mantém acordado. Acho que o cinza é minha cor da paz.
Por isso, todos os dias às 23:00 horas, as coisas ficam
cinza pra mim. É quando encontro a paz do adormecer até que a luz do dia derrama
em minha face suas decomposições prismáticas. Me sinto em uma praia com a
quantidade de ondas, de diversos comprimentos e amplitudes. Mas acordo cansado.
Toda essa decomposição satura meus receptores e eu finjo não perceber, faço
barulho para não escutar e perco meu tempo com filtros. Tento juntar uma cor ou
outra, mas a luz em si não sabe se é onda ou partícula. Às vezes posso tocá-la.
Às vezes, não. Sendo sincero, estou cansado e me sinto como um umbuzeiro, com
raízes profundas, que são sua dádiva e maldição. O mantém vivo, mas o deixam
ver toda a morte da secura a seu redor, impelindo uma culpa existencial.
Desse modo, sigo tentando ser antiprismático e buscando meu
cinza particular, mas minhas profundas raízes me prendem a um velho sertão, que
talvez nunca me deixe. O conforto vem às 23:00.
Luiz Jonatan Fernandes Ambrozio