sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Lambda


Todos os dias, às 23:00 horas, as coisas ficam cinza pra mim. Pode não fazer nenhum sentido para você, mas pra mim contém todo o sentido do mundo. A variação de cores é o que me mantém acordado, contudo, não entendo o que de fato torna musical o meu cotidiano. Por isso, todos os dias, às 23:00, eu sou desligado e mergulho em um sono pouco útil, afinal estou sempre pensando em cores.
Agora me questiono: o que são as cores? Bem, há uma certa quantidade de definições, mas a que mais gosto é mais ou menos o seguinte: cores nada mais são que diferentes comprimentos de onda na região do visível ou, o que dá no mesmo, produto da decomposição do branco, não é, Isaac?! O branco, portanto, pode parecer inclusivo, afinal une todas as cores, não é? Sim e não. Ele apenas reúne as cores, mas não inclui a cor preta, que nem é considerada de fato cor, mas sim a ausência de cor. O preto não entra nesse grupo, o que me faz pensar em escravidão (não sei por quê). Enfim. Aqui voltamos finalmente ao cinza. O que é o cinza se não a mistura em diferentes proporções de branco e preto?! Yin-Yang, noite e dia, equilíbrio, presença e ausência de luz?! O mundo anda muito pouco cinzento, com prismas renais, que decompõem o branco em cores de um arco-íris, que hoje é símbolo de um grupo do qual me incluo, ou melhor, faço parte.  O mais curioso é que esse grupo colorido está cada vez mais afastado do branco, e mais ainda do cinza, não é mesmo?! Os prismas nos segregam em cores que disputam a radiação. No entanto, eu não esqueço que todas as cores são importantes, afinal são elas que tornam o mundo plural, que me mantém acordado. Acho que o cinza é minha cor da paz.
Por isso, todos os dias às 23:00 horas, as coisas ficam cinza pra mim. É quando encontro a paz do adormecer até que a luz do dia derrama em minha face suas decomposições prismáticas. Me sinto em uma praia com a quantidade de ondas, de diversos comprimentos e amplitudes. Mas acordo cansado. Toda essa decomposição satura meus receptores e eu finjo não perceber, faço barulho para não escutar e perco meu tempo com filtros. Tento juntar uma cor ou outra, mas a luz em si não sabe se é onda ou partícula. Às vezes posso tocá-la. Às vezes, não. Sendo sincero, estou cansado e me sinto como um umbuzeiro, com raízes profundas, que são sua dádiva e maldição. O mantém vivo, mas o deixam ver toda a morte da secura a seu redor, impelindo uma culpa existencial.
Desse modo, sigo tentando ser antiprismático e buscando meu cinza particular, mas minhas profundas raízes me prendem a um velho sertão, que talvez nunca me deixe. O conforto vem às 23:00.


Luiz Jonatan Fernandes Ambrozio