terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Gravidade

Quando há vazio
Quem de vocês não o faz,
Buscar preenchê-lo?
Drogas, deuses, convicções

Tantas ações irresolutas
E tantas lutas em vão
Paliativos não curam
fazem acostumar

Todavia, sempre vence
A gravidade, a morte, o tempo
Quem perde somos nós
A vida em muitos atos

Após inflares, prólogos, airas, morre
Enfim rompeu a pompa
Percebe agora que é necessário envelhecer?
Amadurece e aceita.

Aceita o que não é mais teu
Aceita pois nunca fora
O que lhe resta é te conformar
Não choras, não sabes fazê-lo

São muitos tempos
e te prendes ao pretérito?
ouves o imperativo,
mas não conjugas o presente

Não há mais remédios
ou bombas para o inflar
Se não te suportas,quem o fará?
Eis vencido.

Luiz Jonatan







quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O mesmo

Ontem a lua não veio
Eu a esperei toda a noite
Não vem
Nunca vem

A todo tempo
Em qualquer lugar
Sempre vence a ilusão
A ausência lírica de lua

Quem ousa a iludir-se
Quem ousa em crer
Descobre que os secos estavam certos
Não há porquês.

Há tantos paliativos
e pessoas que se incomodam
Bem como vermes
que se alimentam do meu ser

São tantos demônios sussurrantes
que a junção de sibilos me são música
Uma batida calma e cada vez mais lenta
Inebria e volve a dançar por entre gritos

São demasiados gritos
Não cogito qual realmente é meu
Tampouco se há de fato algo meu em mim
Enfins, reticências e balbuciar

Já raia o dia
O sol entediante se aproxima
E a lua...bem, ela me esqueceu.

   Luiz Jonatan






segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Desprezo

Era um poeta
O pior de todos
O mais miserável

Era um amante
Ou tentava
Decadente (tsc tsc...)

Era um nada
E não desejava ver
Que era sua escolha ,
Mas era um poeta miserável...

Cultuava a própria putrefação
Aspirava a carnificina
Moldava uma mentira
Se enganava

Ah, desgraçado...
Por quê não cumpre os desejos?
Rasga a carne que escorre a tinta
Acaba a imundície da existência

Mas é  um poeta miserável...
Havia ainda um pedaço de papel
Não escorrera toda a tinta
E o medo o sussurra, sempre

Vai andando o poeta
Uma folha aqui, um poema lá
Uma paixão, um choro mudo
Um anseio definitivo

É um corpo oco, um poeta vazio
Algo desprezível
Lamurioso, insignificante
É um covarde, não vai.

              Luiz Jonatan

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fim

Muitos foram os que já não estão
E das juras ardentes, eis cinza
E dos gestos velados, ausência
Dos muitos gozos, penitência
Ao dar de ombros, seguir em frente
Às desventuras, indiferença
Um tanto faz cotidiano
Que me volvo a crer
Apático dia, às vezes sorri,
Rubre as faces,
Mas ao fim, eu mesmo
Ao fim, só eu
Ao fim, um nada
Que anseia por si
E em si se encerra
E em si completa um vão
Das  utopias
A descoberta
A resposta incerta
Do porquê ignoto
A tristeza e alegria
Uma gangorra
Um velho jovem
E a poesia diminuta
No céu,
deuses,
mundos
e nada.
Incapaz
De ser.
       
 Luiz Jonatan

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Ser

Ele
Era
Fora
Outrora
Há outra hora
Não mais
Jamais
O mesmo
Ninguém
Vazio
Aberto
Repleto
De nada
Calado
Velado
Morto
E vivo
Amar
Não sabe
Destrói
A si
E pensa
Em outrem
[...]
Só
Pó
Em'strada
Muitos
Mas ninguém
Além dela
Solidão
Evasão
De si
Pensamentos
Escusos
Surreais
Alegrias
E morte
Ele
Eu
So(u)mos
     
Luiz Jonatan

domingo, 19 de outubro de 2014

Procura

Estou cansado de andar em círculos
Não importa quando e onde vá
Vazio
Tampouco com quem, nada além
Vazio
Tal qual a escuridão
Alegro-me com noites:
O sono me faz olvidar
Nem sempre consigo
Sempr ela, a lua
Me olha, me toca, me toca
Com tuas mãos, tão frias
Vazias, aliciam
Cada vez que me toca
Me esvazia de nada
Não se aproxime, cuidado
Não sou o que pensara ser
Afasta-te de mim
E deixa a noite chegar
Eu só quero que acabe o dia
Que chegue ao fim
Estou cansado de mim
De buscar o que parece não existir
O que não me dou
Não possuo, não me é
E aprendemos
Gravamos
Reproduzimos
Pregamos
Pra quê?
Por quê?
Não sei
Não sabes
Não sabem
Deus, só queria crer!
Acreditar no belo
Crer que é necessário
Ficar neste inferno
Tu me diz que é assim
Fazer o quê?
Não sou um alguém conformável
Tu me digas: pra que diabos viver?
                     Luiz Jonatan

sábado, 11 de outubro de 2014

Odores

Hoje cheira a domingo
A fim de feira
Cheira fedido
Cheiro de nada
O ônibus cheio
Perdido em cheiros
O dia tão cheio
Me encheram de nada
Vadio perfume
Me embrulha as entranhas
E o cheiro de vômito
Não cheira a nada
Reluz o poema
Sulfeto ferroso
Cacos de vidro
Palavra inválida [...]
Teu cheiro em suor
Me faz transpirar anseios
O que quero e não devo
A moral cheira mal
No fim do dia
Cheiro a exaustão
É uma confusão de palavras
De cheiros repletos de nada
Os estupros no ônibus
Cheiram a pranto
Sabor salgado
Cheiro molhado
E a arma
Cheiro de pólvora
De sangue
E nada
Cheiramos a medo
Desejos velados
Sentimentos cerrados
A todas palavras
Meu cheiro sulfídrico
Corrói o cobre da fiação
Acaba a luz
Não há energia
Escrevo no escuro vacilante
Cheiro a medo
À minha carne podre
A meu eu errante
E ainda há quem reclame
A prata escureceu
Minha parcela de culpa
Mas não há luz. Não vês.
Ne me quitte pas
Quero cheirar
O amor
 
                     
 Luiz Jonatan










terça-feira, 30 de setembro de 2014

Aqueles Dias

Às vezes sei - mesmo que não deseje - que são dias daqueles. Acordo como se o pesar e o peso do mundo se instaurasse em meu coração e em minhas costas. Odeio - os. Nem sei como melhor descrever tais dias estando em um deles. Todavia sei bem como os sentir. Isso é demasiado chato: a concentração se vai ao passo que chega a ansiedade, os pensamentos se transladam à velocidade da luz no vácuo de certezas que se faz em mim, as buzinas, as crianças que choram, o embalar do ônibus me matam e nada faz sentido. Na verdade, nada faz sentido. A diferença reside no quanto estamos dispostos a filosofar acerca disso. Nem a vida faz sentido. O problema é que tem dias sorteados à filosofia que acompanhada de hiponoradrenalinoses causam um estrago...Pior, ainda, quando sua vida se torna uma verdadeira lotérica e o desejo de não ter nascido se torna eminente e algumas cognições iminentes [...].
  Em dias daqueles, bom seria se desvincular de qualquer possível lógica e afins. Bom seria dormir uma semana e não ser necessário acordar porque sua liberdade de escolha está prostrada aos pés de uma tendenciosa linha de rotina, de "escolhas". Bom seria andar descalço sem rumo e não o julgarem louco ou alvo de assalto por isso [...]. Por fim, chorar, talvez, também fosse um bom paliativo, mas nem isso é possível em nenhum dia.

             Luiz Jonatan

terça-feira, 23 de setembro de 2014

É hoje

Tu me cobras a infância
Quando já não mais sou criança
Tu me pedes passado
Quando não mais ha lembranças

Não sou
Não desejo
Não hei de vir a ser
Perfeito

Quem pouco faz
De tudo tem
Enquanto quem tudo faz
Nada

Ainda há quem aponta ao sul
"Veja os erros"
Quando te esqueces a janela aberta
Por ela entram palavras mordazes

Quando a vida toda não é sua
Então, resoluto, decides tentar
"Não minta, não sinta, calado"
Os olhos, tão rasos, transbordam

Será, céus, que não sou digno
Não sou de acreditar?
De que vale a moldura
Se o quadro jaz vazio?

Por que são terríveis as pessoas?
Pelo qual julgam esforços alheios?
O pior são as facas afiadas
São as palavras sangradas

Terrível é descobrir que ninguém mede palavras
Todavia as suas devem seguir a métrica
As seguia antes, mas cansei
Cansei de abster-me de falar

Quando os refluxos sobem à cabeça
Quando te acostumas ao pelego
Quando tenta agradar a todos
Quando sua vida é a minha, cuidado

Adverter-vos-Hei :
nem a morte é uma escolha
Sua letra, seu estilo, o que gostas
Nada é ou pode ser se não agrada

Dizem que a culpa é das estrelas
Que o aval fora do "Bom Deus"
Que num empertigado céu se resolve
Enquanto o único culpado sou eu

As estrelas morreram, são poeiras
O deus que pregam é um demônio mau
O céu não é assistência técnica
Quem permitiu foi eu

Agora esperam o espetáculo
Porque ensaios científicos são chatos
E ninguém aprecia o ignoto(vocês não)
Castiga o aparelho defeituoso

Sabe o que a tão sagrada bíblia diz?
Julgai, guerreai e matai em nome d'Ele
Mas, os aristocratas canônicos não se importam
As beatas, os leigos, os hereges

Ninguém se importa quando está bem
E os dedos apontam
Dedos de merda que cagam 
Cagam pros outros

A merda fede
Mas fede mais seus genitores
Porque estão podres por dentro

E se alimentam de hóstias
E são fieis ao que há de pior
E não se importam com quem chora

Querem impor
Querem falar
E estou cansado de ouvir

Meus ouvidos sangram
Vomito os refluxos em palavras
E a música não sai à cabeça

Há dias mais legais
Há dias mais chatos
E há dias como hoje.

                               Luiz Jonatan

sábado, 6 de setembro de 2014

Barra

Acabei de ler o livro e um homem foi morto há pouco. Isso faz da vida uma comédia: morrer: modificamos o espaço, nos subordinamos às regras e morremos rapidamente, como campanhas de candidatos ditos excêntricos na T.V; deixamos calcificar as células num segundo enquanto outros nem notam nossa existência ou, como acaba de ocorrer, a nossa inesixtência.
Me sinto não-vivo e ouço de sua mãe o pranto. Parecia que o dia, indubitavelmente, seria normal. Morrer é normal, mas não lembro de mortes do tipo por aqui[...].
Há dias que são escolhidos para que ocorram as coisas, outros não. Há dias em que nos sentimos felizes ou triste, todavia há também aqueles nos quais me sinto os dois. É estranho, mas havia me acostumado, e ouço d'A Via Lactea' a 'Fidelity'. É como hoje. Penso novamente no que fazer, por que fazer e quando fazer. 'Fake Plastic' é perfeita tal qual aquele dia na praia. Me sentia parte do silício da areia, do o oxigênio inalado por nós e também do gás carbônico. O sol estava lindoo e o ceu de um azul alegre. Me lembro que o mar também estava feliz (pelo menos parecia) e se demorou a nos alcançar. Assim, dois de nós fora a seu encontro, mas ele estava frio. Não o entendo, porque diz coisas felizes, mas não há um brilho profundo em suas águas (é frio às vezes) e recua ao passo que se aproximam. Mesmo assim, fomos a seu encontro e mergulhamos, como sempre, receosos. Depois o sol se pôs sem sequer nos acusar, mas não me importei muito  (ninguém o fez) porque nada daquilo de fato era tão importante quanto eram os que estavam ali. Era hora de partir. O fizemos e não endornamos corpos: permanecemos sentados e a música era legal. No entanto, era um dia de ambos e ela, o ônibus, o fim da dopamina, alguma coisa me fez lembrar o outro lado deste tipo de dia. Às vezes até tenho um sorriso doentio ao pensar o quão paradoxal alguém pode ser. Seria profundamente pesaroso com alegrias superficias ou alegre com profundas quedas, afinal não somos máquinas hormonais, de dopamina? O que sei é da violenta mudança de humor e do silêncio que paira agora que sua mãe se calou. Sei, ainda, que gente assim, as que fazem rir, na verdade são tristes no fundo. Não sei como conseguem. Não cogito muita coisa. É difícil fazê-lo quando não há imparcialidade. Por fim, ele morreu, sua mãe parou de chorar, o livro acabou e o sono se aproxima. O que ocorre durante este último também me instiga.

       Luiz Jonatan, 00:00

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cinema Mudo

Naquele dia, não se olharam dignamente: os soslaios mesclados de curiosidade se fizeram discretos. O embalo endonarva seus corpos mudos - que outrora gargalhavam entrementes uma pessoa e outra - e a noite permanecia de olhos abertos; fones, cansaço e bolsas complementavam o cenário do que estava por vir. Eu não o  vi de mesmo modo. Na verdade, nunca tinha o visto inteiramente, mas voltemos aos olhares: um permanecia resolvido, contemplava o mundo, embalado por sons, enquanto fitava a realidade; o outro, intermediário, lutava consigo e seus egoísmos, com seus medos e desejos. Tal qual uma ponte, possibilitava o acesso, mas também autolisava e estremecia com o tempo. Se sentia um nada, uma pulga, mas resistia a tais pensamentos[...].  Ainda sobre a tríade, o último, mais denso e empertigado, observava atentamente o tempo e intenções transcorrer, repleto de pompa e abstrações.
Não entendo o porquê de certos resguardos, todavia tentei veementemente compreender:fora falha tentativa. Os bons sentimenos necessitam de escapes frágeis, os quais se decompõem com o ar e são esquecidos. Permanece aquela lembrança bastante a um patrono. Eu de fato desejava que as vias se esticassem e a viscosidade do tempo aumentasse ao máximo para que, mesmo em cinema mudo, aquela cena fosse eternizada e a viagem também. Não obstante, ele sempre espera um abraço, um afago, mas, sobretudo que não seja vencido pelo egoísmo e assim permita o que talvez não tenha impedido. Espera, ainda, que o mundo fitado pelo outro seja para este um seio materno, que o alegre como faz a mim.
Ele não compreende a pompa e receio de amar. Não entende a mim. Não me cogito.[...]
Tendo em vista que a característica principal de um sonho é não pertencer à realidade, os corpos desentornaram, as vias estreitaram, cessou o embalo bem como a cena, a meu olhar, feliz. Cada um seguiu teu caminho, '' até amanhã ''.

         Luiz Jonatan

domingo, 31 de agosto de 2014

Pertence

Tudo o que tenho não é meu:
São alegrias aladas
Voam aos céus
Livres como um gás.

Deixam atrás
Pre-palavras
Entre um adeus e
Sombras de véus

Não me importo se vão:
Ao menos ficaram.
Se puder recordar,
Me farei Salomão[...]

Me olhas, te sinto
Amor em pensamento.
Te vais e percebo
O que diz em silêncio.

Quis trancafiar como o dinheiro
Mas, se o faço, verdadeiramente 
Me prendo e perco-o de repente

Recluso, te tornas estéril, indiferente
O que me pertence  é livre
E voa a todo instante

É livre para escolher
Livre para não ficar
Livre para permanecer
Livre para se libertar

Tudo o que tenho não é meu
Porque propriedade é privada
Mais fortes as amarras
Que não se prendem a nada

Voar, vou, ar, de ninguém.

Luiz Jonatan

sábado, 30 de agosto de 2014

Aprendiz

Tu me ensinas?
A amar,
A ser melhor,
A morrer?

Quero saber:
Como guardar lembranças?
Como não ceder à agonia?
Como voltar a ser criança?

Devia ser expurgado
Maldito ,inesperado
Te odeio e te uso
Em cada instante, cada parágrafo

Que me ensines
Que me parta
Que te escondas
Tu me matas

Assim, nostalgico
Recordo
Nem cogito se fora
Mentira ou verdade.

                  Luiz Jonatan

Viajante

Ele buscava o que não sabia
E não sabia o que buscava
Todavia, por mais que o fizesse
Por mais que buscasse, nada [...]

Dos que o encontraram
Poucos os não feridos
E o couro batido
Mostra a face entrementes a suspiros

Só atrai o impossível
Assim caminham os homens
Assim se fazem ouvidos
Assim aparece e evanesce[...]

Encontrara, certa vez, similar.
Desposara de um sonho,
Morto antes de respirar
Mas tua inquietude o fizera tristonho

A morte, sinuosa,
De curvas atraentes,
Gestos pomposos,
Sua alegria doente
Vem e se vai...

Quando não há o que fazer,
Se esvai a alegria.
Eis que surge o maldito Anjo
Que tanto Russo predilezia

Ele quer não precisar
Esquecer, sepultar
Mas o Anjo sempre vem

Deseja alguem
Ser o que é utópico
Ter o impossivel
Ouvir todos os seus tóxicos

Morrer mais rapidamente
Partir sem que percebam
Manter-se forte a todo instante
Deixar que, como ele, o esqueçam.

                 Luiz Jonatan

domingo, 17 de agosto de 2014

Circo

Vida circence
Versos dolentes
E algumas risadas

Dias corridos
Tempo perdido
E sempre nada

É um engraçado,
Desgraçado,
E pungido.

É um sei lá
Um talvez
É um missal de porquês
Porquês escondidos
No seio do que não perece
Tampouco evanesce
Perdido

Quando fecham as cortinas
Não há mais sentido
Não tem mais piada
Há só um esquecido

Todavia, toda via é igual
Leva sempre a um sei lá
Às vezes faz mal
Mal podem esperar

Ávidos por espetáculos
Guarnecem em Tabernáculos
Sua Tragédia Grega...

Com fim da apresentação
Maldito e impertinente coração
Pulsa pesado e acuado

Rompe as herculias vidraças
Duma redoma facínora
É ignoto se chora
Se morre, se grita

E fechadas cortinas
Cessado o show
Ninguém se atentou
À ausência do apresentador
O que vale é a presença de quem faça sorrir

Se tiver de partir,
Que o faça em espetáculo
Posto que o povo é guiado
Por mortes, engraçado.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Ser Criança

Tenho saudade de quando criança. Tenho vontade de ser a criança que não mais é.
Outrora, o seio familiar e os laços de amizade, mesmo turbulentes, eram coisas bastantes a um sorriso sincero e desapercebido de preocupações [...] Lembro, mais nitidamente que o hoje, das bricadeiras iguais, porém diferentes, reiventadas, lunares...Ah, que saudade das areias que minha avó fazia a mim retirar do corpo  antes do sono profundo, debaixo da cerâmica molhada de orvalho e de um céu negro, pontilhado de estrelas!
Hoje me invade o pesar por entre lembranças infantis. Lembranças pobres e difíceis, porém, não obstante, felizes. Não era necessário dizer virtualmente o que olhos e gestos diziam com exímia perfeição. Também não necessitávamos comprar a suposta felicidade que é vendida em embalagens polimerizadas, tingidas, numeradas, chamativas e repletas de nada; a felicidade não custava um sentavo. Era tão gratuita quanto um sorriso que escapa dos lábios de quem ''estava de mal''.
Me sinto atônito ao perceber que aquela criança morrera e que em teu lugar reside um miniadulto, de hábitos estranhos, de gestos vazios e preocupações fúteis. Não corre mais a criança em seu vasto mundo porque é preciso se atentar aos conselhos do mágico portal: não pode desgrenhar as madeixas, borrar a emoldurada maquiagem, esquecer de digerir inúmeros comerciais, revindicar aos pais os mais novos modelos de smartphones, enfim, uma variedade de nadas.
Este miniadulto não mais passa o tempo com amigos reais, nem sentimenos plurais: o espelho publicitário as mostra um reflexo distorcido  que se infunde na formação individual, se dissolve e macula a pureza que ainda restara.
Bem, a infância de que me recordo - e sinto demasiada saudade -jaz maribunda num sofá rodeado de glúten e açúcar, enfeitado com controles e presentes que tentam suprir o vazio das essências.
Não sabemos mais o que é ser criança(?).
    
                     Luiz Jonatan

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Segunda-feira

  Todo dia é estranamente igual: estudo, estudo, trabalho, as mesmas pessoas, as mesmas vielas, vias, estradas; às vezes o tempo resolve mudar, mas o faz analogamente ao que os profetas do tempo anuciam com suas probabilidades e certezas.
  À medida que penso, mais odeio minha semelhança com Deus e confesso temer a razão [...]. Me seria bem mais válido permanecer matéria desapercebida de consciência que ver a ausência de sentido no existir e saber que a vida, pelo que sabemos, se resume em morrer. Mas o pior é a morte das justificativas, não do corpo a que me limito. A maldita razão nos permite desbravar as falhas ignotas dos pensamentos, os dogmas e paradoxos.
  Sou animal pouco evoluído para pertencer a este lugar, porém, covarde o bastante, permaneço neste agregado celular; fraco, incapaz, não posso trocar algo paupável, visível, concreto por um talvez, uma solução que na verdade é um paliativo à dor desmotivada e aparente.
  Toda  segunda-feira é assim: perco o tempo implacável tentando absorver abstrações, dados, fórmulas e datas enquanto vejo as secreções de uma ferida incômoda escorrendo por meu corpo. Sinto-as em minhas entranhas, seu putréfico odor me enjoa e o motivo pelo qual se formara e infeccionara, náuseas.
  Bem, as terças-feiras são um pouco diferentes: estou cansado e ciente de que já se foram trinta  e duas horas, pelo menos, de minha vida e ocorrem os picos dopâmicos com posteriores depressões. Além disso, o pus sobe á cabeça e provoca pensamentos infecciosos (''pesamentos felizes''), incômodo (''diabos, não te incomoda?''), fios caem (''ora, já fora pior!''), caio ('' sistema imunológico fodido''), mas é conveniente levantar. Pouco agradável, porém conveniente o bastante.
   Não espero muito dos demais dias, apesar de uns domingos hipócritas me forçarem a crer em dogmas, os quais dizem ''ora, como assim não está arrependido? O inferno lhe está reservado!'' e, não é de bom tom olvidar, ''a felicidade não é deste mundo''. De fato os domingos são pungidores natos e paradoxais.           Cremos em teses de fracos argumentos e ainda nos depreciamos por tais.
  A rádio transmite ''Creep'' do Radio Head e, quando é bom dormir, ''Asleep'', perfeita canção de ninar dos Smiths, que embala um sono o qual as semanas com seus dias teimam em interromper.
Segunda a Domimgo.
  Vivo cada dia por obrigação. Finjo por comodidade. Minto para causar motivação  e me engano com minhas verdades.
  Um dia, talvez, encontre em meio às víceras deste corpo social um objetivo que dê sentido a toda esta entediante rotina ou, tal qual Domi, consiga a força e coragem necessárias â descoberta  do desconhecido.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O palhaço triste

Há um palhaço chorando
Soluçando na cidade escura
Uma lembrança em cada traço
De seu rosto, sorrindo de amargura

Está cansado de encenar
Uma mentira, uma peça
E teu olhar - outrora de alegria -
Sem brilho, hoje, inebria

Ele sabe, mesmo odiando saber
Que por mais que esconda
Com tinta branca, vermelho na ponta,
De si não pode esconder

Há um palhaço chorando
Soluçando na cidade escura
Uma lembrança em cada traço
De seu rosto, sorrindo de amargura

Ah, palhaço vadio,
Vai trabalhar!
Que queres fazer, vazio?
Não sabes amar!

Tua vida é parnasiano poema
Preocupaste com a forma
Descuidando do tema
Triste palhaço: secou, não chora

Sorrindo com os olhos
Sepultando seu ser
Esperando a morte
Pensando que assim pode viver

                              Luiz Jonatan

sábado, 21 de junho de 2014

Tudo Certo

Tudo Certo

 
Tudo certo, relaxe
Sempre está assim
É de praxe!
Sobre mim,
Saiba que vendi a alma
Antes de nascer
Sem nunca viver
Nunca fui eu
Nem sei quem diabos sou
Perdi a calma
Me restou o ninguém
Eu sou...quem sou?
Enfim
Mais um dia
Às vezes esperança
Uma alegria, uma alergia
Um corte, uma úlcera
Feridas, soslaios machucam
Esvaiu-se de mim a doce criança
E a borra em coma induzido, imposto
Representa tão bem o que fora subtraído
Desprovido da essência que nunca existiu
Desenhos, palavras, sons velados
Sonhos nublados não precipitam
Sorrisos sem nanotraços de dor
Amor é coisa de criança
Sonhos nublados
Não precipitam
Que derrame então rosas vermelhas
Sobre chagas, crepitem
Queimem o verme em labaredas ferventes
Não, não o façam no inferno
O inferno não é quente o bastante
Tudo certo, relaxe
Só espere um instante [...]
Chorar é de praxe
"Don't cry"
Deixe-me em paz
O barulho interno é o bastante
Silêncio!
Diga-me você:
De que serve a vida de um verme?
Talvez o porquê seja a morte:
Alguém tem que fazer o que ninguém quer
Beber chorume em vez de café
Comecar pelas víceras, deixar cabelos e dentes
Fazer olvidar, como algo sem importância,
A quem jurara ser eterno.
Tudo certo...
Enquanto for conveniente juarar, juras
Se necessário, ou melhor, é a verdade: minta
Mais um aniversário, alguns acidentes
Talvez ela chegue e o verme nem sinta.
Clichês
Luiz Jonatan

Chove

Chove


Está chovendo la fora...
As gotas caem no chão
Emitem sons [...]
Ei, espere!
Elas estão me contando histórias
Histórias de pessoas
Que deixam suas lágrimas correr
Correm com ela
Compartilham sofrimentos, histórias de vida.
A chuva tem muito a me contar
Deitar-me-ei agora para dormir
Ouvindo essas histórias
Dormir para acessar meu mundo
Para sonhar
Sonhar para ter um bom sono
Sonhar dormindo para esquecer o autoabandono
Enquanto a chuva cai.
 Luiz Jonatan
 

sábado, 14 de junho de 2014

Sonhos Acabam

Sonhos Acabam


Abri os olhos
Acordei de um sonho tão bom...
Eu realmente era feliz
Minha maior preocupação era o ser

Por que sonhos acabam?
Porque se vão quando a lua se vai.
Quero alguém que me aceite
E entenda que sou o que não sou

Só ele saberá
Só ele entenderá 
Como é o meu amor
Estranho amor

Quero alguém que escute
As palavras do meu eterno silêncio
E me defenda de mim mesmo

A dor nasce do meu amor
Pela paixão 
É sangrar até morrer

Quero alguém que me abrace quando chorar
Nas noites em que penso "sonhos acabam"
Que minhas lágrimas enxuge
E a alegria de saber que não estou só
Não faria do Sol um traidor.
Luiz Jonatan

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tu sentes?

Tu sentes?

Que será mais triste,
Viver sem sentir
Ou sentir que não vive?
Será isto triste ou o fito demais?
Talvez, se não fito, não sinto
E, sem sentir, não sei viver
E se o viver independe do sentir,
Tu sentes o não sentir?
Se não sentir o não sentir,
Será que sentirei o sentir?[...]
Não há sentido no sentir
E tampouco no não sentir
Mas, se não há sentido,
Por que insistir no sentir?
Tu insistes no sentir?
Sentir é demasiado perigoso...
Cuidado como que sentes!
Se sentires demais, há perigo
Podes acabar por não mais sentir
De tanto que sentia
Porém havia - sempre há - o não sentir
de quem tu tanto sentias [...]
E agora, sentes o não sentir?
A vida em si transborda de sentidos
Dos quais nada se sente
Não há razão no sentir o não sentir
Porém sentir independe a nossa filosofia
Sentir exige demais:
É preciso coração,
É preciso sentimento,
É preciso a junção de ambos,
É preciso não precisar
E tal necessidade se instala por entre o vácuo,
Eliminando deste a essência
Que havia entre o sentir e o não sentir.
Tu sentes?
Luiz Jonatan


Arrastão

Arrastão

Socorro, levaram minha vida!
Foi no Brasil, na Liberdade
Levaram minha vida, sem piedade
O poder legítimo caiu
E o caos se instalou
(O que já existia, só se exaltou)
Caídos no chão, jazidos no asfalto
Meus direitos perdidos, tomados de assalto
Ir e vir é de poucos
Bem como viver
Nossas vidas tomadas
Tomadas no arrasto
Meus direitos perdidos, tomados de assalto.
Me dizem que a culpa é minha
''Quem manda dar bobeira?!''
Verdade...somos todos culpados.
 Por isso, em casa, vivemos engradados...
Com medo da sombra
Claro, é preta! (não que eu seja racista)
(racista é o branco)
Ave Maria! Roubaram a rima!
Bem feitio, poema. Quem manda rimar?!
Olha pra lá, que delicia! Toda ''se bulindo''...vamos pegar!
Arrasta essa nega, vamos jantar !
Ei, esconde na meia (o que foi arrastado).
Fecha as portas, São Salvador
Não salvou a si mesmo
E ninguém há de salvar...
Chuta a bola, menino
Faz de trave os cadernos
Er...Senhor deputado, sai dinheiro de seu terno abastado
Chuta a bola, menino
Antes da Copa acabar...
Deixa pra lá o destino:
Ninguém precisa estudar.
Quem pensa demais morre
Gregório, Renato e Eistein que o digam
E toda essa segurança me entedia!
Iposso tudo com apenas um toque
Samsom cortou os cabelos
E a moto rola pela cidade
Eita porra, arrastaram!
Arrastaram a cidade!!!

Luiz Jonatan

domingo, 11 de maio de 2014

Mães

Mães 


Cá, no ocidente planetário, diz o calendário civil
Que o segundo domingo de Maio é delas
Das mães

As mesmas mãos que empunham neste dia rosas
Que depositam no seio de suas amas
São algozes fezes defecadas, não paridas
Que neste dia, por força do hábito, se perfumam

Prostrando por terra esse meu naturalismo atroz,
Há filhos que são dignos de tal título
Não foram cagados e sim paridos
Por um ventre divino e amaldiçoado

É pecado olvidar as mães tias, avós, mulheres
Também o é expurgar os homens-mãe
Mas confesso que elas são elas
E que ser mãe é espelhar-se em divindade

Ser mãe é ir além das limitações humanas
Sem deixar de lado a humanidade;
É entregar-se em função dos filhos
E das fezes defecadas

Não sou, eu nada, digno de definir tão sublime ser
E, por isso,como mesmo proclamam:
"Quando forem mães, saberão o que é ser uma".


Diálogo de polos

Diálogo de pólos


Certa vez, nas muitas voltas da vida,
Uma dama, olhos negros vesanos,
Ignota, porém conhecida,
Questionou, de sobressalto, meu ser insano

''Como vai ela?''
Quem diabos seria?!
''A poesia em sua vida''
Ah, esquecer, quem pudera?

Ainda mais eu, plangente
Que dos versos às volúpias de um poema
Atroz, incapaz e dolente
Desconhece onde de si é são ou doente

Ele me vem - o poema - de repente
Fico pávido, pesaroso e contente
E a luxúria dos vocábulos me inebriam
Em meio a um gole de melancolia

Minha erma inspiração é ignota à luz
Mas, no breu de minh'alma, mostra as faces
E o que dizem ser ''autismo'' é confusão una

Diga-me você, dama de hábeis perguntas,
Como poderia eu, verme mortal pungido, feliz (?),
Abster-me da divã de minha vida?!


Luiz Jonatan