segunda-feira, 14 de julho de 2014

Segunda-feira

  Todo dia é estranamente igual: estudo, estudo, trabalho, as mesmas pessoas, as mesmas vielas, vias, estradas; às vezes o tempo resolve mudar, mas o faz analogamente ao que os profetas do tempo anuciam com suas probabilidades e certezas.
  À medida que penso, mais odeio minha semelhança com Deus e confesso temer a razão [...]. Me seria bem mais válido permanecer matéria desapercebida de consciência que ver a ausência de sentido no existir e saber que a vida, pelo que sabemos, se resume em morrer. Mas o pior é a morte das justificativas, não do corpo a que me limito. A maldita razão nos permite desbravar as falhas ignotas dos pensamentos, os dogmas e paradoxos.
  Sou animal pouco evoluído para pertencer a este lugar, porém, covarde o bastante, permaneço neste agregado celular; fraco, incapaz, não posso trocar algo paupável, visível, concreto por um talvez, uma solução que na verdade é um paliativo à dor desmotivada e aparente.
  Toda  segunda-feira é assim: perco o tempo implacável tentando absorver abstrações, dados, fórmulas e datas enquanto vejo as secreções de uma ferida incômoda escorrendo por meu corpo. Sinto-as em minhas entranhas, seu putréfico odor me enjoa e o motivo pelo qual se formara e infeccionara, náuseas.
  Bem, as terças-feiras são um pouco diferentes: estou cansado e ciente de que já se foram trinta  e duas horas, pelo menos, de minha vida e ocorrem os picos dopâmicos com posteriores depressões. Além disso, o pus sobe á cabeça e provoca pensamentos infecciosos (''pesamentos felizes''), incômodo (''diabos, não te incomoda?''), fios caem (''ora, já fora pior!''), caio ('' sistema imunológico fodido''), mas é conveniente levantar. Pouco agradável, porém conveniente o bastante.
   Não espero muito dos demais dias, apesar de uns domingos hipócritas me forçarem a crer em dogmas, os quais dizem ''ora, como assim não está arrependido? O inferno lhe está reservado!'' e, não é de bom tom olvidar, ''a felicidade não é deste mundo''. De fato os domingos são pungidores natos e paradoxais.           Cremos em teses de fracos argumentos e ainda nos depreciamos por tais.
  A rádio transmite ''Creep'' do Radio Head e, quando é bom dormir, ''Asleep'', perfeita canção de ninar dos Smiths, que embala um sono o qual as semanas com seus dias teimam em interromper.
Segunda a Domimgo.
  Vivo cada dia por obrigação. Finjo por comodidade. Minto para causar motivação  e me engano com minhas verdades.
  Um dia, talvez, encontre em meio às víceras deste corpo social um objetivo que dê sentido a toda esta entediante rotina ou, tal qual Domi, consiga a força e coragem necessárias â descoberta  do desconhecido.

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