terça-feira, 29 de julho de 2014

Ser Criança

Tenho saudade de quando criança. Tenho vontade de ser a criança que não mais é.
Outrora, o seio familiar e os laços de amizade, mesmo turbulentes, eram coisas bastantes a um sorriso sincero e desapercebido de preocupações [...] Lembro, mais nitidamente que o hoje, das bricadeiras iguais, porém diferentes, reiventadas, lunares...Ah, que saudade das areias que minha avó fazia a mim retirar do corpo  antes do sono profundo, debaixo da cerâmica molhada de orvalho e de um céu negro, pontilhado de estrelas!
Hoje me invade o pesar por entre lembranças infantis. Lembranças pobres e difíceis, porém, não obstante, felizes. Não era necessário dizer virtualmente o que olhos e gestos diziam com exímia perfeição. Também não necessitávamos comprar a suposta felicidade que é vendida em embalagens polimerizadas, tingidas, numeradas, chamativas e repletas de nada; a felicidade não custava um sentavo. Era tão gratuita quanto um sorriso que escapa dos lábios de quem ''estava de mal''.
Me sinto atônito ao perceber que aquela criança morrera e que em teu lugar reside um miniadulto, de hábitos estranhos, de gestos vazios e preocupações fúteis. Não corre mais a criança em seu vasto mundo porque é preciso se atentar aos conselhos do mágico portal: não pode desgrenhar as madeixas, borrar a emoldurada maquiagem, esquecer de digerir inúmeros comerciais, revindicar aos pais os mais novos modelos de smartphones, enfim, uma variedade de nadas.
Este miniadulto não mais passa o tempo com amigos reais, nem sentimenos plurais: o espelho publicitário as mostra um reflexo distorcido  que se infunde na formação individual, se dissolve e macula a pureza que ainda restara.
Bem, a infância de que me recordo - e sinto demasiada saudade -jaz maribunda num sofá rodeado de glúten e açúcar, enfeitado com controles e presentes que tentam suprir o vazio das essências.
Não sabemos mais o que é ser criança(?).
    
                     Luiz Jonatan

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