Havia um menino que andava como uma formiga pelas ruas. Sempre rápido e decidido. Aproveitava cada fração de segundo para executar alguma atividade produtiva. Eu simpatizei com ele ao vê-lo pela primeira vez: estava sentado na grama, olhando para o nada, aqui na praça. Falei "olá", mas apenas me olhara e cumprimentara com a cabeça. Ele sempre faz isso. Deve ser porque nossas mães nos orientam a não falar com estranhos, não sei, ou porque assiste a muitos filmes antigos, com toda aquela pompa. Enfim. Me afeiçoei ao garoto. Ah, e a propósito, vamos chama-lo Thiago.
Thiago nunca foi de falar muito com ninguém. Nem sei como descobri seu nome...Acho que ouvi sua mãe o chamar, ou melhor, berrar uma vez da sacada de casa. Pela cara que fez, assevero que gritos irritam-no, tal qual como qualquer coisa que chame atenção. Uma vez o vi cantar, mas, ao me ver, sua voz definhou até um balbuciar de uma música melancólica, como aquelas que os religiosos cantam na Quaresma. Dava para sentir seu pesar. Aí que eu conheci Thiago mais um pouco. Percebi que falar o induzia a um enclausurar instantâneo. Se não morasse aqui ao lado, poderia jurar que esse menino vivia preso, porque seu jeito me lembra uma lebre assustada. Mas não vive. Assim, tive uma ideia:
"Thiago,
prazer, meu nome é...". Funcionou.
"Olá, Senhor.
É um prazer conhece-lo. Também aprecio um bom chá. Infelizmente as pessoas com quem convivo preferem refrigerantes, mas consigo, com muita retórica, extrair um suco delas. Me chamam de velho, inclusive, mas considero tal título como um elogio, posto que os anciãos são, em geral, mais sábios. "
E assim adentrei o mundo do menino formiga.
Hoje, revirando as muitas cartas que recebi, me deparei com uma que me chamara atenção. Fala do amor:
"Senhor,
estava voltando para casa de ônibus e pensei "será possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?". Isto me intriga bastante, pois, como sabes, gosto muito de imaginar situações. Realidades alternativas. Por exemplo, uma pessoa conhece um alguém e desenvolve um amor, a seu ver, platônico. O tempo passa e essa pessoa se relaciona com outra, a qual sabe amar. Contudo, se a primeira situação fosse diferente, ou seja, o platonismo deixasse de o ser, será que a pessoa amaria o seu amor? Eu creio, senhor, que sim. O amor acontece. E mais: acredito que essa pessoa amaria os dois seres amados simultaneamente. Mas os humanos são possessivos. Desde a invenção da cerca, tentam tomar pra si tudo como propriedade privada, inclusive as vidas de outros. Podem não proferir tal desejo, mas as atitudes são o espelho mais fiel da alma. Palavras mentem. O que há de errado em amar, se é querer o bem do outro?
O que fazer quando amar duas pessoas é uma questão mais delicada que saber se o fato é possível, pois, neste caso, pode-se negar até a morte de algo ou alguém, mas uma vez amando, o sentimento ali faz morada. Hora grita, hora adormece, estremece e sustenta o olhar, mas demora a morrer, se é que morre. Mas nós, prepotentes e arrogantes, nos encarregamos de julgar os sentimentos, como se fossem passiveis de racionalização, e assim vamos fissurando o coração. Este, uma vez machucado, vai trocando o belo por tecido fibroso, se velando e retraindo, buscando distrações e canais para evacuar o que transborda em si. Geralmente são gestos espontâneos, soslaios, poesia. Todavia, senhor, há corações que ficam assustados com sua capacidade de amar e se culpam pela incompreensão alheia. Deve machucar.
Acho que não devo falar mais, não é? Creio que tenhas entendido já o que pensei na janela do ônibus. Em quantos encontros deixaram de existir, quantas mãos não se tocaram, quantos palavras foram ditas apenas com o olhar, quantos corações se tornaram fibrosos sem um porquê exato.
Atenciosamente,
Thiago
Refleti não sei quanto tempo nestas palavras. Eu já amei de verdade, mas digamos que tenho uma tendência ao platonismo e me cansei. Desde então, tenho amado de outra forma, não para a vida toda. Venho amando as pessoas que conheço verdadeiramente. Não ouso dizer amar sem certeza e sim, eu acredito no que me dissera o menino formiga. O amor é um mistério. Não desejo lhe roubar a essência, o entendendo. Sentimentos devem ser sentidos e não compreendidos por completo, a meu ver ao menos. É como o silêncio: uma palavra e sua existência frágil se desfaz. Apenas amo e é este amor que me faz tentar compreender, ao invés de julgar, o porquê da partida tão rápida de um menino pomposo e de olhar atencioso. É esse amor que me faz chorar ao lembrar de tudo que não chegara a acontecer, de todas as cartas não nascidas, das palavras não ditas; é o que me faz sentir saudades.
Luiz Jonatan
{ É esse amor que me faz chorar ao lembrar de tudo que não chegara a acontecer, de todas as cartas não nascidas, das palavras não ditas; é o que me faz sentir saudades.} esta ultimo texto me encanto.
ResponderExcluirObrigado, querido:)
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